quinta-feira, 1 de julho de 2010

O espantalho

Era inverno, o costumeiro e ardido sol não aparecera hoje.
Na mesa da cozinha sua mulher tomava o café, respingado de lágrimas, enquanto olhava fixamente para aquela terra não mais fértil.
Ele terminava de calçar as botas puídas no mais tumular dos silêncios. Visava agora a indesejável pá que estava atrás da porta já enferrujada e com sua tela repleta de furos, ineficiente.
Pegou a pá, a cesta preciosamente carregada, esmagou umas duas ou três baratas e seguiu rumo a seu último plantio.
Cavar na terra infértil é um trabalho difícil, não porque ela fica seca e dura mas por não conseguir enxergar propósito nisso.
Com a terra rompida tudo fica mecânico, enfia a pá, tira um punhado de terra, passa os tristes olhos pela inocente cesta.
Está fundo o bastante. Ele, agora, enrolava lentamente um cigarro para acompanhar o cheiro da terra mexida e morta.
Com o cigarro terminado, ele enxugou as lágrimas enlameadas de seu rosto e seguiu em direção ao cesto. Ó terra infértil!
Era aquele o momento, plantar sua última semente neste mundo infértil e injusto. Delicadamente colocou seu recém-nascido filho, pelado, ainda com vestígios do cordão umbilical e um pouco ensanguentado no buraco recém cavado.
A cada grão de terra que caia sobre o bebê o choro ficava mais intenso, berrava mas não tinha fome, nem sono, não sentia nada. Nada além do desalento do seu genitor.
Com toda terra de volta ao buraco, o choro ia se extinguindo conforme a terra se assentava e asfixiava o rebento...

Silêncio sepulcral.

Aquela terra infértil recebera sua última semente.
Ali cresceu um espantalho.

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